A localidade mais atingida pelo temporal no município foi o Bairro
Jacarezinho, onde 81 casas e sete estabelecimentos comerciais ficaram
alagados, devido ao transbordamento dos arroios Jacarezinho e Jacaré.
Duas das empresas atingidas pela enchente foram a Sorveteria Ki Gostoso
das irmãs Eliane Capitanio Agostini e Ivanete Maria Capitanio Conzatti,
além do bar do marido de Eliane, Ademar Agostini, situado ao lado. As
perdas foram grandes quanto às mercadorias no mini-mercado, e,
principalmente nas matérias-primas para a fabricação dos sorvetes e
picolés como as embalagens na sorveteria. “Também tivemos que fazer
manutenção em todos os freezers e equipamentos”, diz Eliane. Ela
acrescenta “temos que agradecer muito a todos que nos ajudaram a
retirar as coisas, senão o prejuízo seria bem maior. Perdemos muito e
choramos, mas não vamos baixar a cabeça. Como disse meu marido: a gente
perdeu, mas não perdemos tudo e estamos conseguindo trabalhar, graças a
Deus temos força para isso”, comenta. A água dentro da sorveteria
chegou a cerca de 60 cm e foi suficiente para virar os freezers. Já no
bar a água passou de um metro de altura.
Locais públicos
No Salão Comunitário e na Igreja São Carlos a água chegou a cerca de
1,60 metros. O prejuízo no salão foi principalmente o piso que foi
arrancado, praticamente a metade, com a força da água. Na Igreja
diversos móveis foram estragados, além dos arquivos de fotos, livros e
folhetos para missa, bem como roupas para os coroinhas e outros
utensílios. “Estávamos em cerca de 50 pessoas ajudando a tirar as
coisas da igreja. Queremos agradecer a todos por este gesto e também ao
mutirão que foi feito para limpar e arrumar os móveis da igreja, bem
como no conserto provisório do piso do salão”, diz o presidente da
comunidade, Adenor Agostini. Ele assumiu a presidência no dia 3 de
janeiro e um dia depois teve essa indesejável surpresa. “Pretendemos
fazer alguma ação para recuperar os prejuízos, mas isso vamos ver em
conjunto com apoio da comunidade e da Prefeitura”, mencionou.
Também o Posto de Saúde da comunidade foi atingido, onde muita coisa
foi estragada e assim impossibilitando o atendimento à população local.
A Escola Estadual de Ensino Fundamental Antônio De Conto foi outro
ponto que teve tudo estragado. A água chegou há 1,50m e com a força
derrubou armários e assim vidros foram quebrados, portas não fecham
mais direito, livros, classes, quadros, cadeiras estragadas, apenas o
que era de madeira antiga não foi danificado e alguns utensílios e
livros que ficaram fora da água. Outra perda foram os arquivos,
inclusive o passivo de outras escolas: São Luiz, Auxiliadora e São
Roque. A comunidade conseguiu salvar os computadores da secretaria e a
máquina de xérox. Conforme a diretora, Luciana Pretto, a escola
encaminhou um relatório ao Governo do Estado e Federal na busca de
recursos para os investimentos necessários a recuperação do patrimônio.
No dia 13 a diretora esteve na 3ª Coordenadoria Regional da Educação,
onde a coordenadora Rosana Rührwiem disse que em 90 dias classes e
cadeiras novas estarão a disposição dos alunos. As aulas iniciam no dia
22 de fevereiro e se até lá não chegar o material as atividades
reiniciarão com a utilização das mesas e cadeiras da comunidade. Para
limpar a escola, um mutirão foi formado por diversos dias. “Precisamos
de qualquer coisa que as pessoas puderem doar, uma caixa de lápis, um
lixeiro, uma vassoura, qualquer coisa, pois precisaremos comprar quase
tudo”, diz a diretora. Ela comenta ainda que uma das ideias é fazer uma
parceria com os bombeiros e comunidade para realizar treinamentos para
situações como essa de emergência.
Na noite de 13 de janeiro, o bispo natural da comunidade, Dom Paulo De
Conto, veio especialmente para rezar uma missa junto aos seus amigos e
familiares. Uma maneira que encontrou para dar forças e ver como estava
a situação em sua terra natal.
A reunião
A Administração Municipal realizou na noite de 14 de janeiro uma
reunião com a comunidade no salão do Clube Serrano. A iniciativa teve o
objetivo de ouvir os relatos sobre o ocorrido e as reivindicações
quanto aos problemas em relação aos bens públicos danificados pela
catástrofe.
Um abaixo-assinado com os pedidos, que contempla principalmente as
reformas na ponte sobre o Arroio Jacaré foi entregue ao vice-prefeito
José Calvi e o secretário do Planejamento Tiago Orsolin. Na ocasião,
eles esclareceram dúvidas e ouviram as opiniões dos integrantes da
comunidade.
A Administração Municipal assumiu o compromisso, junto a um grupo de
aproximadamente 80 moradores, de destruir a ponte que havia sido
construída sobre a antiga, em 1996. “Na sequência, será feito o aterro
e o acesso à ponte antiga para dar condições de tráfego. Essa
alternativa é provisória até que possamos construir uma nova ponte”,
explica Calvi. Para isso, o município aguardará a liberação de verbas
federais.
Em relação aos danos nos demais bens públicos, como escola e posto de
saúde; e comunitários como o salão e igreja, o Executivo comprometeu-se
em buscar recursos junto a deputados federais e pediu a colaboração de
pessoas da comunidade que mantém contato com políticos, para reforçar
os pedidos.
Saiba Mais da enxurrada
Ao todo, dez residências ficaram danificadas e outras totalmente destruídas no município. Conforme o responsável pela Defesa Civil de Encantado, Adil Luiz Feraboli, 74 famílias ficaram desalojadas. Houve ainda corte no fornecimento de água e energia elétrica. O acesso aos municípios de Doutor Ricardo e Nova Bréscia, através da RS 332, ficou interrompido até o início da madrugada do dia 5 devido à queda de barreiras. Também houve alagamento de diversas casas nos bairros Lambari, Vila Moça e Centro. Nas proximidades do Supermercado Imec, a água invadiu a pista da RS 129. No interior do município, a força da água destruiu o aterro e danificou as pontes na Barra do Coqueiro, Linha São Brás e Jacarezinho. Outras cinco pinguelas foram danificadas entre as localidades de Jacarezinho e Barra do Coqueiro. Na propriedade do produtor Moacir Giacomolli, em Linha Jacaré, a força da água destruiu três aviários e matou cerca de 35 mil frangos. Outro aviário destruído foi o de Clairton Borghetti, na Barra do Coqueiro. O produtor contabilizou 14 mil frangos mortos. Mais propriedades rurais sofreram com a destruição de lavouras, além de danos aos acessos das propriedades. O prefeito Paulo Costi decretou na manhã do dia 5, situação de emergência.
